
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
segundo Maria Guadalupe
(continuação)
Falámos de "chafurdões" ou "safurdões" de tipo céltico abundantes no concelho de castelo de Vide. Acrescentamos que também existem no concelho de Marvão e que em ambas as circunscrições os há também de planta quadrada - tipo ibérico.
É pertinente lembrar que os celtas se juntaram aos Iberos (povos da Península Hispânica) dando origem aos Celtiberos.
Soube pelo carreirense Dr. Ruy Ventura que há 2 "safurdões" na freguesia de Carreiras: um na propriedade chamada Casépio, próxima do aglomerado populacional; outro na Tapada da Madrovaz (corruptela de Amaro Vaz) e um outro na Seixinhosa, propriedade dos limites da circunscrição, situada junto à estrada nacional nº 246 que liga Portalegre a Castelo de Vide.
São monumentos a preservar que vêm engrossar o conjunto dos já referenciados por arqueólogos e historiadores.
Trata-se de construções totalmente de pedra, com cobertura em falsa cúpula, portas geralmente viradas a Nascente e quase sempre situadas no cume de um "cabeço", sobre uma rocha, não longe de um curso de água.
A Drª Maria da Conceição Monteiro Rodrigues na obra "Carta Arqueológica do Concelho de Castelo de Vide" diz a certa altura o seguinte: "o problema da origem das construções circulares tem sido muito debatido, defendendo uns a tese céltica, outros a pré-céltica".
Por seu lado os autores de "Construções Primitivas em Portugal" consideram tanto as que acima referimos como as de planta de quadrada referindo que elas se encontram "em inúmeras partes, na Europa, Ásia e África; na Itália e Sardenha, na Jugoslávia, na Hungria, em França, na Espanha e Baleares, em Portugal, na Escócia e na Irlanda, na Arábia; no Norte de África, etc!".
Segundo a mesma obra, a difícil localização histórica das construções de falsa cúpula deve-se ao facto de haver dúvidas em relação à sua idade real (em Portugal).
Tendo em consideração "a rudeza de matérias, modos de construção, aspecto e erosão da pedra" na maioria dos casos parece realmente tratar-se de edificação muito antigas.
Lembram os mesmos autores que "faltam inscrições datas e referências, concretas em quaisquer textos".
Além disso parece que em Portugal não se perdeu a técnica da construção em falsa cúpula ao longo dos séculos, visto que algumas edificações são actuais, havendo em alguns sítios construções em actividade.
Bibliografia
Oliveira, Ernesto; Veiga, de, Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal"; Rodrigues, Maria da Conceição Monteiro - "Carta Arqueológica do Concelho de Castelo de Vide
(in Fonte Nova, nº 1511, de 8/12/2007)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
(segundo Maria Guadalupe)
Falemos então dos celtas.
Antes de tudo e porque o nosso objectivo é "Viver Carreiras", diremos que foram os "responsáveis" pela manutenção do som "e" (aberto) em vez de "a" proveniente de "A" tónico latino.
Os carreirenses sabem que os mais velhos normalmente iletrados (e isto não significa incultos) dizem brinquer por brincar, fumer por fumar, bureco em vez de buraco, cedede por cidade, varejer, por varejar, etc.
É uma característica dos falares da Beira Baixa e do Nordeste Alentejano de origem céltica, que se mantém viva nos nossos dias e é prova da permanência desse povo nesta parte do país.
É que antes que os romanos submetessem a Península Ibérica já os Celtas permaneciam nela havia muitos séculos.
O berço desta civilização foi a Europa Central - Boémia e Baviera, mas a partir do século V a.c. estes povos começaram a deslocar-se para Ocidente e até ao Mar do Norte.
No ano 300 antes da nossa Era ocupavam os territórios dos seguintes países: Irlanda, Grã-Bretanha, França, Suiça, Espanha, Portugal e uma parte da Turquia.
Tinham uma escrita própria o "ogam". Foram encontradas nas Ilhas Britânicas gravadas nas arestas de blocos de pedra, cerca de 360 inscrições celtas em escrita ogâmica.
O alfabeto consiste num sistema de golpes e "teriam sido necessárias toneladas de pedras para escrever qualquer frase".
Os Celtas desconfiavam dos textos escritos e só registavam o que não tinha importância. O saber dos druidas (sacerdotes), os longos poemas antigos e as narrações dos feitos heróicos dos antepassados eram transmitidos oralmente.
Restam inscrições votivas, de moedas, contas de mercadores e o calendário de Coligny.
Em Portugal são de origem céltica, entre outros, os seguintes topónimos: Bragança, Penafiel, Coimbra, Penacova, Setúbal e Évora.
Os vocábulos "camisa", "caminho" e "légua", tão vulgares em todo o país têm também a referida origem.
E como continuaremos a falar dos Celtas, lembramos, a finalizar que aos "chafurdões" do concelho de Castelo de Vide, de planta redonda e falsa cúpula se costuma chamar de tipo céltico.
Biografia
Alexandre, Maria Guadalupe - Etnografia, Folclores e Linguagem de Castelo de Vide, 1976; Maçãs, Delmira Maria Filomena Benito - Pela Europa de Celtas e Romanas, Lisboa 1993; Walter, Henriette - A Aventura das Línguas do Ocidente - a sua origem, a sua história, a sua geografia, Paris, 1994
(in Fonte Nova, nº 1509. de 1/12/07)
terça-feira, 20 de novembro de 2007

segundo Maria Guadalupe
Eis-me aqui ainda com a capacidade de me deslumbrar perante as coisas simples, o apego, a leitura de paisagens, a sede da essência dos lugares e o sabor do Humanismo que caracterizou a minha geração.
Sinto também a necessidade de partilhar conhecimentos, de aprender e de ensinar, de valorizar personalidades.Viver numa aldeia implica, necessariamente, conhecer o pulsar da comunidade mas pode começar-se pela meditação. Depois de enchermos os olhos de beleza, podemos fechá-los e encarar o universo das interrogações. Procurar descobrir, entender, explicar, interiorizar e amar são marcos de um caminho que me proponho percorrer com todos os leitores, especialmente com os carreirenses.
Vamos lembrar a localização da "aldeia-presépio" para considerarmos dois aspectos que me parecem interessantes. O primeiro diz respeito ao facto da circunscrição se estender por encostas e vales da Região de São Mamede, entalada entre dois concelhos com riqueza histórica - o de Castelo de Vide e o de Marvão. O segundo refere-se à localização da parte urbana, empoleirada num contraforte, espécie de ponta nordestina do Concelho de Portalegre.
Tal situação, agravada pela falta de estradas que se fez sentir até meados do século XX, favorecida, por outro lado, pelas raízes históricas, fez com que os citados concelhos se constituíssem, tal como o de Portalegre, pólos de atracção da comunidade carreirense.
Disso são testemunhos os mercados-francos de Castelo de Vide, bem como a influência do pensamento político, especialmente no início do século passado, a tradição das "rijas bailaradas" no termo de Marvão, a fama da Taberna do Ânjaro (Ângelo) nos Alvarrões e as Veredas de contrabando.
Naturalmente houve casamentos (vários, entre os meus antepassados), estreitaram-se laços de parentesco e a ligação cultural manteve-se até os nossos dias.
Como acontece com todas as freguesias portuguesas, a de Carreiras foi antes a Paróquia de São Sebastião. O termo paróquia significa "congregação de fregueses", entendendo-se por fregueses os filhos da igreja.
São, as paróquias circunscrições antiquíssimas, reflexos de um certo "ordenamento do território" levado a cabo pela Igreja Católica na Europa do século IV, ao sentir necessidade de dividir as dioceses que se tinham estruturado no século II. As paróquias, raízes das actuais freguesias, têm 1600 anos!
Não acreditamos que a de Carreiras seja tão antiga... Mas... que existia nesta região há 16 séculos? Tentaremos responder na próxima semana.
Bibliografia
1. "Civilização Cristã"- Dicionário Temático Larousse (Círculo de Leitores)
2. "Diciona'rio Ilustrado da História de Portugal"- Publicações Alfa
3. Machado, José Pedro- "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa
4. Informações Especiais de Maria F. Tavares Transmontano
*
Situava-se na província da Lusitânia que tinha como capital Mérida (Emérita).
A sua municipalização "deve ter ocorrido no século I e controlava um território vasto em parte coincidente com o distrito de Portalegre".
Dos quatro eixos viários da cidade, um seguia para Sul, utilizando a ponte da Madalena, passando pelos carris, "local onde foi detectado um vestígio do empedrado da calçada", continuava pelos Alvarrões e descia para o lado da Ribeira de Nisa, contornando o Cabeço do Mouro, até Portalegre donde se estendia até Mérida.
Esta via passava , como agora passa a estrada nacional nº 359, a escassos quilómetros do contraforte sobre o qual se situa a aldeia de Carreiras.
Até ao momento presente desconhecemos a existência de qualquer achado arqueológico desta época no território da freguesia e por isso só a proximidade dum núcleo populacional e administrativo importante nos leva a admitir que o "sítio" pudesse ser habitado.
Não esquecemos que, em 1911, foi encontrada em Fortios uma estela funerária romana que depois de permanecer no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, infelizmente desapareceu. Fora colocada na sepultura de um menino de 3 anos de idade, liberto (filho de escravos) e nela se podia ler a expressão - que a terra te seja leve.
Ora esta aldeia do concelho de Portalegre fica bem mais distante de Ammaia que a de Carreiras e nesta última a citada expressão latina e habitualmente usada como traduzindo um desejo de grande repouso para quem morrer.
Poderia ter existido no "sítio" da "Aldeia Presépio" um pequeno aglomerado populacional, então denominado VICUS.
O que é certo é que o respeito dos velhos carreirenses, pelo fogo da lareira está relacionado com o culto doméstico da população romana.
Disso falaremos no próximo número.
Bibliografia
IBN MARUAN nº 12 - 2002
Borges, Sofia: A Cidade Romana de Ammaia - As Termas do Fórum - (Notícia Preliminar); Carneiro, André: O Fim do Império e a Cristianização no território da CIVITAS AMMAIENSIS - Mudança e Continuidade no Concelho de Fronteira; Carvalho, Joaquim: Ammaia e a sua RedeViária - Algumas propostas de trabalh; Mantas, Vasco GIL: - Libertos e Escravos na Cidade - Luso-Romana de Ammaia; Pereira, Sérgio: Dois Depósitos Monetários encontrados na porta Sul (Ammaia); Civilização Romana - Dicionário Temático Larousse - 1992
*
Deixámos o leitor, no último artigo, com uma pergunta tão ousada que não conseguiremos responder de uma forma simples e segura.
Falta-nos o trabalho e os conhecimentos do arqueólogo. Mas, apesar de tudo, poderemos tecer algumas considerações sobre a possibilidade de as primeiras habitações de Carreiras não passarem de construções circulares de muros de pedra seca e cobertura vegetal (giestas...) em forma de cone.
Não o fazemos levianamente mas com base nas informações de grandes investigadores portugueses.
Com efeito, na obra intitulada "Construções Primitivas em Portugal" da autoria de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira pode ler-se: "... nos primórdios da civilização humana todas as construções ou formas habitacionais não eram mais do que simples abrigos".
E também, a propósito do tipo de construção a que fizemos referência: "... é muito frequente no Alentejo e encontra-se em várias partes da província".
E ainda: "No Distriro de Portalegre toma particular relevo, além de Alpalhão e Cratyo, por toda a Serra de S. Mamede, no concelho de Marvão, perto de Castelo de Vide e sobretudo na povoação de Cabeçudos".
Segundo a mesma fonte existem também em Castro Verde, Amareleja (Moura), Reguengos, Alandroal, Juromenha, Elvas e Santa Eulália.
Poderão dizer-nos que nada prova que os tais "sochas" (e usamos a maneira de dizer da região), especialmente usadas nos nossos dias para abrigar animais, tenham uma origem tão remota.
E é bom que tal seja notado, porque afinal é necessário compreender o evoluir do homem no tempo.
A propósito de Carreiras e das marcas de civilização Romana deixadas nos seus costumes, fixámo-nos nos primeiros séculos antes e depois da nossa era, achando que o "sítio" deveria já ser povoado.
Acontece que antes dos Romanos outros povos estanciaram na nossa região e nela deixaram vestígios, o que nos leva a crer que a povoação terá uma origem ainda mais antiga.
Um desses vestígios, de que falaremos em devido tempo, é de carácter linguístico e aponta para uma zona celtizada.
E quem foram os celtas?
Falaremos deles na próxima semana.
Veiga de Oliveira, Ernesto - Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal", 2ª edição, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1988
Estes são os primeiros artigos de Maria Guadalupe Alexandre sobre Carreiras, publicados no bissemanário Fonte Nova, números 1497 (20/10/07), 1499 (27/10/07) e 1505 (17/11/07). Segundo a autora afirma, outros se seguirão. Iremos arquivando o material por aqui, na secção "Documentos".
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Andorinha gloriosa
Tão formosa c'm' à rosa,
Quando Deus quis nascer
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p'la pastorinha.
- Pastorinha do bom dia!
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C' o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse "Amen Jesus".
Mas anda cá Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu' hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar,
Tem as relicas do perdão
Com que foi aseteado
O mártir São Sabastião.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Ó avé Maria, Mãe da Piedade,
Pedi ao Senhor pela Cristandade.
Pela Cristandade não le sei pedir,
Não sou m'recedora do Senhor m' ouvir.
Do Senhor m' ouvir estas minhas palavras,
Minha alma s' alegra em ver que nos salvas.
Salvador do mundo, que a todos salvais,
Salvai as nossas almas, bendito sejais.
Bendito sejais, bendito São José,
Fugiu c' o Menino lá p'rà Nazaré.
Se eu fosse com ele na sua companhia,
Seria devota da Virgem Maria.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu 'stá c'roada,
Por cima do manto uma c'roa sagrada.
Uma c'roa sagrada de bom coração.
Não nos deixem morrer sem a confissão.
Sem a confissão não havemos de morrer,
Qu' a Virgem Maria nos há-de valer.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu está c'roada
Rainha dos anjos, Mãe de Deus amada.
De passo em passo, de rua em rua,
Se foi sepultar sem culpa nenhuma.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Quando entro na igreja digo esta oração:
Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."
terça-feira, 5 de junho de 2007
UM AMIGO Conheço João Salvador Martins desde que me lembro de ser gente. Colega de brincadeiras de um sobrinho seu, recordo uma sala em cuja parede estava um dos seus cavalos. Lembro ainda os seus passeios, por vezes solitários, pelas ruas e campos das Carreiras e, sobretudo, alguns retratos que, com singular rapidez, ia fazendo nas costas de calendários de pendurar, onde apareciam figuras típicas da nossa aldeia comum (o taberneiro e cantador Domigos Sobreira, Chico Pragana, surdo-mudo e cadeireiro, e alguns outros) e permaneciam expostos, entre garrafas e copos de vinho, numa tasca da Rua da Igreja.
Foi o primeiro pintor que conheci – e por isso, em jeito de homenagem, lhe dediquei um pequeno poema (recentemente publicado na revista Saudade, em Amarante), no qual recordei as bolandas que levaram à execução e reexecução do retrato a carvão do ti’ António Afonso do Adro, hoje na posse da família deste –, imediatamente antes de Maria Lucília Moita que, nos anos ‘70/’80, era presença constante na aldeia (falsamente chamada “presépio”).
Sem nada perguntar, observando o trabalho de João Salvador quando podia – e, também, os retábulos da igreja do Mártir São Sebastião, obra anónima do século XVII – ia criando consciência do que são a arte e a pintura: não somente representação, mas transfiguração; mais do que visão, imaginação; mais do que conteúdo, matéria plástica (cores e traços numa parcela simulada do espaço).
Trinta anos de diferença nos separavam na minha infância; era natural que os nossos contactos se limitassem a uma breve passagem da sua mão pela minha cabeça e a um olhar meu de admiração. Trinta anos nos separam ainda hoje. Ambos capricornianos de vinte e tantos de Dezembro, são agora mais frequentes as nossas conversas no café do Rossio, nas ruas das Carreiras ou noutro lado; nem sempre estamos de acordo, mas entendemo-nos como amigos – e isso basta.
Só esta amizade e gratidão que me ligam a João Salvador Martins e à sua pintura me convenceram a romper por momentos o afastamento voluntário em relação à maior parte das actividades desenvolvidas na Biblioteca Municipal de Portalegre. Desgostoso com a estranha e perigosa mistura feita nesse espaço entre cidadãos com qualidade humana, cívica, artística e/ou literária e outros sem dimensão estética e/ou ética (para não falar noutras “coisas” que por ali ocorrem ou dali partem) – fui obrigado a reconhecer que a melhor maneira de demonstrar amor pela terra em que nasci e vivi é voltar as costas a tudo quanto macula o seu bom nom
e de cidade e de centro de uma região.Os quadros que pude observar na exposição de João Salvador Martins eram, na sua maioria, meus conhecidos. Tive até o privilégio de acompanhar a execução de alguns deles, nomeadamente as aguarelas carreirenses. Independentemente do motivo que apresentam (na pintura não interessa a vista ou o rosto retratado, mas a capacidade de interpretação e de transformação do pintor, conseguida através do desenho e da disposição das cores – tudo o resto está de fora, pertence às circunstâncias, não interessa ao quadro enquanto objecto artístico), confirmei o interesse que sempre me suscitaram.
Nem a descuidada montagem da exposição, nem o catálogo lamentável, nem o insensível emolduramento das obras carreirenses (propriedade da Junta de Freguesia local) conseguem diminuir a qualidade dos quadros. Trouxe no olhar, entre outras obras, os retratos muito conseguidos de Maria Tavares Transmontano e de Nuno Oliveira. Valem por si, independentemente de quem representam. Transfiguram a realidade, animando-a. Toda a boa pintura deveria ser assim…
quinta-feira, 26 de abril de 2007

[Carreiras]
não há semáforos à entrada da aldeia.
no entanto, o vermelho cai constantemente
sobretudo para aqueles que
querendo avançar
vêm de fora, sendo de dentro.
não há sequer uma passagem para peões
ou qualquer limite de velocidade
que justifique a sua presença.
existem, porém, semáforos invisíveis
que não obrigam a parar
mas conseguem que o automóvel
parta mais depressa.
por vezes sem cor, revelam dois ou três
rostos conhecidos (na terra), sentados
todo o dia na esplanada do café ou
(daqui por uns anos) debaixo de uma das árvores do largo
num albergue ou à porta da casa mortuária.
só o verde parece não existir
para aqueles cuja presença incomoda as pedras.
para esses, os semáforos têm apenas duas lâmpadas
uma amarela, outra vermelha.
não se vêem, mas existem
à entrada da aldeia – numa das curvas da estrada
depois do portão (sempre aberto) do cemitério.
*
dois poiais sempre ao redor. mas poderiam ser
dois cabos eléctricos a debruar a fachada da igreja
dois focos a escurecerem a torre ou apenas
duas placas com erros de ortografia.
assim se constrói uma aldeia.
mesmo quando existem roldanas
lembrando o embargo da construção.
a terra é a mesma. e se, em cinquenta anos, foi
cemitério, parque infantil, balneário público, junta
de freguesia e parque de estacionamento, a culpa
é apenas do terreno, instável, apesar da rocha.
a essência fica e o odor é o mesmo.
e não será uma trasladação em caixão de chumbo
que irá resolver o assunto.
*
das tascas nem uma sobrou.
a única que ainda se ergue
com portas há muito fechadas
será, com certeza, um quarto de cama
ou uma casa de banho privativa.
a rua nem sobe nem desce.
até os andores, em dia de procissão, preferem
agora estrada nova, num povo onde
as imagens têm reforma compulsiva
sem processo disciplinar nem culpa formada.
as bocas, essas, calam-se. como se as casas
e todas as palavras fossem clandestinas
não vão alguns ser como o santo
que, primeiro, se negou ao chibo da promessa
mas depois já corria atrás dele.
a alegria permanece, apesar das nuvens
e da cortiça (quase humana) que não sai
mesmo depois dos nove anos
correndo o risco de perder a serventia.
a alegria permanece. a vontade fica. regressa.
embora traçada a negro no rosto
daqueles cujo automóvel encontra
todos os dias (ou quase todos)
um sinal vermelho à entrada desta aldeia.
(para Maria Guadalupe Alexandre)
quarta-feira, 18 de abril de 2007

Carreiras
Tudo poderia ser dito – excepto, talvez, a alegria.
Tanto tempo depois, a estrada continua por terminar. A árvore parece mais esguia (cortaram-lhe há pouco quase um terço da copa).
O automóvel dá, no entanto, a mesma volta – trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.
De Lisboa até aqui são duzentos e trinta quilómetros, a que metade de um corpo regressa permanentemente, como se fora à voz dos sinos (embalando os mortos), à altura das pedras, como se desenhassem um fim de tarde.
A criança desce até às profundezas da terra, encontrando, na súbita angústia de um pulover molhado, o caldo de farinha – situado, ainda hoje, no número cinco da rua da Calçadinha.
Carreiras
As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga.
Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.
Calçadinha, nº 5 (1)
Haverá sempre alguém acenando para a mesa. Um garfo – ou somente um guardanapo – traduzindo para a mesa o sabor da terra.
È preciso, no entanto, entrar como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu.
A rua – ela própria – não mais retomou o cheiro de há mais de vinte anos: a porta comunicava com a cozinha, mesmo ao cimo das escadas, sob a telha de vidro; a lâmpada pendia da madre. Havia sempre alguém acenando para a mesa. Do lado de fora, pelo postigo. Apenas de dentro, de tantas coisas – o garfo, a navalha escondida por detrás da lareira, o copo de água voltado sobre um corpo que parte.
Sem habitantes, a casa regressou, talvez a três quilómetros de distância. Uma janela ilumina o quarto, embora os passos sejam os mesmos.
Como a água, atravessando de memória o forno, o horizonte. Ou, em silêncio, alguns animais. A escritura, perdida na mudança.
Calçadinha, nº 5 (2)
Quanto lhe custariam os amendoins comprados na taberna da aldeia? Retirados um a um do pequeno saco de plástico, ao mesmo tempo que o tilintar das moedas sobre o balcão e as vozes na tarde iam acompanhando as cartas de jogar, os vinténs de cobre cruzando o espaço, buscando no jogo a distância entre o sabor do vinho e o preço, verdadeiro, das ruas em pleno domingo. Quanto lhe custariam a idade e próprio sorriso (tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato, a caixa de pedreiro distante na escuridão, como uma navalha dentro perdida dentro do bolso)? Entre a cama e a lembrança das pequenas coisas (apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado), quanto lhe custariam o miar do gato a adormecer na lareira, as castanhas comidas como luzes, a bicicleta – substantivo próprio à espera de um lugar dentro da geografia – ?
A memória faz a sua selecção, não consentindo sequer em mostrar-nos os seus sinais de angústia e de morte. Apenas alguns minutos – e o mundo circula como um automóvel, silhueta estranha que vamos decifrando em torno da comoção e do cansaço.
Ao fim e ao cabo, entre o deve e o haver dos sentimentos, as perguntas subsistem. Das respostas, apenas vão aparecendo páginas dispersas no inventário dos sentidos – de regresso à claridade do horizonte.
Fonte Nova, nº 8 (1)
Ao fundo da rampa (onde outrora fora uma latada) havia uma construção de madeira e folha de zinco. Na varanda, permaneceram, durante dezoito anos, duas barricas com água da Fonte Nova e, uma vez por ano, com algumas arrobas de azeitona. O tanque tinha um odor diferente de tudo quanto o rodeava – guardava um pouco de nós nas suas águas sem movimento.
De tempos a tempos, era preciso gatear a cancela com pregos sem serventia ou com arame retirado a algum fardo de palha. Delimitava um espaço que não deveríamos ultrapassar, embora (sobre o muro) fosse fácil dirigir o olhar até uma casa rasteira, onde apenas a porta comunicava luz ao interior da cozinha.
(Foram precisos alguns anos para que entendesse a disposição deste corpo – desvanecendo-se.)
Junto à salsicharia, a avenida deixava de existir. A cor desaparecera há muito. A música da varanda partia até debaixo da tangerineira. No inverno, uma parte da rua escurecia – subitamente.
Certo dia, foi preciso entregar a chave – como se o carteiro passasse a recusar os degraus que vão até ao primeiro andar. A porta de madeira, posta na horizontal, deixou de ser suficiente para nos resguardar da chuva. Em compensação, passaram a existir folhas de jornal entre o vidro e a grade – para que o sol ficasse menos intenso.
Fonte Nova, nº 8 (2)
Mesmo antes, não era decerto o melhor lugar para atravessar até ao outro lado do edifício. Um tanque, talvez uma acácia. Duas ou três sacadas numa das últimas madrugadas de dezembro.
Alguém reduz os alicerces da casa. Lembro o jardim, de oliveira a oliveira, a escada de cimento, o braço – segurando -, a melancolia.
(Decidi guardar o envelope na última gaveta da cómoda. Ponho os nossos nomes entre os objectos cujo significado nos absorve. É difícil determinar as ressonâncias quando abandonamos, pelas dez da manhã, uma cidade que cresce.)
Nunca tive realmente um quintal. Demasiado perto ou demasiado longe para que a possamos alcançar, a imagem cresce de quinze em quinze dias, ainda que o passeio seja apenas o início de um nascimento.
A porta abre-se, como se fosse a linha do horizonte. Entre duas noites de chuva, tudo está em tudo, tudo nos pertence.
Avenida
Partiu para sempre – o peso sobre o assento, até Castelo de Vide, parando no Carvalhal.
Subia com pressa a rua do Canto, repetindo, sem parar, o preço dos frutos, o calor do pão, logo pela manhã.
A bicicleta seguia – completamente só – apenas com o equilíbrio retirado ao vento ou à figueira (de que hoje resta somente um rasgo sobre o muro).
São assim as estações. Mesmo em julho, as nuvens guardam-nos de um sol demasiado intenso.
Cemitério
O casaco, a camisa, uma gravata de duas cores – e esta agonia (espécie de contentamento), do outro lado do muro, para onde poucos olham.
O homem veste, pela última vez, um murmúrio, a inocência nos olhos, um lençol que se estende a todo o campo.
O hóspede abandona a casa – para sempre -, esquecendo até que fora recebido minutos depois de uma morte (uma porta entre muitas). Não mais reclama, dentro do coração, a sombra a tapar metade da fotografia.
(Desta cidade guardo a data de nascimento, um telhado, uma figura na neblina. As crianças correm para o rio, mesmo que fique a cem quilómetros de distância. O medo permanece, mesmo nos melhores livros. Abre a janela, ao fundo do bosque. Entreolha essa gota de suor. Vem mostrar um rosto quase escondido: a música, uma ponte que não termina – e só assim alcança esta margem.)
segunda-feira, 5 de março de 2007
da freguesia de Carreiras
(Portalegre)
Existentes um pouco por todo o país, mas com maior incidência no território a norte do Tejo, as torres senhoriais constituíam residência de membros da nobreza, geralmente situadas em vales ou planícies férteis, ou na proximidade de vias de circulação. Segundo alguns autores, a sua multiplicação deu-se a partir do século XIII, com o progressivo abandono dos castelos mais isolados. Como refere José Morais Arnaud, a maior parte delas “tinha uma aparência modesta, sobretudo quando pertenciam a pequenos cavaleiros. Muitas vezes mal se distinguiam das habitações camponesas, a não ser pela qualidade dos materiais, ou pela cobertura de telha (...). Noutros casos, porém, quando correspondiam à morada de um grande senhor, apresentavam uma estrutura mais complexa, com mais espaços disponíveis.”
No Alto Alentejo são vários os exemplos conhecidos deste tipo de monumentos. Alguns deles são ainda observáveis: a “Torre de Palma” (Monforte), a “de Segóvia” (Elvas), a “do Esporão” (Évora), a “Torre das Águias” (Mora) ou a “da Amoreira da Torre” (Montemor-o-Novo). Da maior parte restam, no entanto, apenas referências documentais ou vestígios na toponímia, como acontece na região da Serra de S. Mamede.
Na freguesia de Carreiras (Portalegre) são duas as torres senhoriais que, felizmente, ainda se conservam. Modestas, quando comparadas com a imponência das referidas, mas ainda assim significativas quer em termos arquitectónicos quer no que respeita à história da região, merecem uma justa preservação e integração nos roteiros turísticos.
Junto à Vargem, nos terrenos férteis que bordejam o leito da ribeira de Nisa, temos a “Torre Alta”. No sopé da Serra de Castelo de Vide, perto da calçada medieval que era o principal acesso viário de Portalegre a esta vila, temos a “Torre de Caldeira”.
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| Torre Alta, fachadas viradas a norte e a poente. |
Levantada entre o antigo caminho para Castelo de Vide e a ribeira de Nisa, no sopé da serra de Frei Álvaro, foi sendo conhecida ao longo dos séculos por vários nomes: “Torre da Ribeira de Nisa”, em 1690; “Torre da Ribeira”, em 1742; “Torre da Vargem”, em 1786; “Torre Alta” nos nossos dias, ou simplesmente “Torre”.
Não foram localizados, até ao momento, quaisquer documentos escritos que forneçam dados concretos sobre a data da sua construção. Assim sendo, podemos apenas contar com a lenda que tem corrido entre os rendeiros da propriedade, a qual nos foi transmitida pelo sr. Marmelo, que aí residiu durante mais de trinta anos. Segundo nos contou, durante a visita que fizemos à “Torre Alta” em 01.09.2001, acompanhados pela dra. Maria Guadalupe Alexandre, a torre pertenceu noutros tempos ao mosteiro da Provença (cujas ruínas góticas se podem visitar a algumas centenas de metros para sudeste, ao lado de um novo estabelecimento hoteleiro). A ser verídica esta informação (as lendas têm sempre um fundo de verdade), a “Torre Alta” estaria então integrada na propriedade (“lugar de Proves” ou “Vale de Flores”) doada por D. Fernando na década de 70 do século XIV a Fernão Pereira, irmão de D. Nuno Álvares Pereira, e entregue anos depois – após a sua morte durante a crise de 1383-85 – por sua mãe, Iria Gonçalves do Carvalhal, aos monges da Serra de Ossa. Provavelmente pertenceriam ainda à mesma quinta, e logo ao mosteiro, um pombal (hoje integrado na habitação do “Monte do Pombal Velho”) e a “Azenha do Pombal”, cujas ruínas ainda se podem ver nas suas proximidades.
Construção com origens em finais da Idade Média, rectangular e com boa dimensão, o edifício da "Torre Alta" que hoje podemos observar é o resultado de várias reconstruções, reparações e acrescentos. Originalmente sem reboco, apresenta actualmente a fachada sul caiada e a face virada a nascente rebocada.
Exceptuando a porta de entrada (muito modificada), a “Torre Alta” não possui qualquer janela ou abertura no piso térreo, o que mostra um intuito defensivo. Reveladora desta preocupação é a existência de um alambor, que torna a parte inferior da torre mais larga e ligeiramente inclinada. Junto da porta de entrada, para a qual se sobe por uma rampa calcetada, possuía antigamente um grande bebedouro esculpido em pedra, hoje transformado em poial.Tanto as janelas quanto a chaminé existentes no piso superior devem ser posteriores à construção original. O acesso ao primeiro andar, com soalho em sobrado, faz-se por uma escada em madeira, partindo de uma espécie de varandim em pedra e alvenaria (que se eleva até cerca de metro e meio do solo), ao qual se acede por degraus no mesmo material. O pé-direito da parte térrea tem perto de 4 metros. Na parede virada à ribeira de Nisa, a poente, existem várias seteiras (ou frestas) e na parte cimeira um nicho feito em tijolo, onde outrora terá estado a imagem dum santo. Também na fachada sul existiu outrora uma seteira (hoje regularizada) de onde, segundo a lenda, “se avistavam os cavaleiros”.
A cobertura da torre é actualmente feita por um telhado de duas águas, viradas a norte e a sul. A existência de restos de um friso ou beirado em tijolo na fachada virada a poente leva-nos a colocar a hipótese de que teria outrora um telhado com quatro águas. É também possível que existisse um segundo andar, situação habitual nas torres senhoriais.
Nas proximidades deste monumento da freguesia de Carreiras existem vestígios bem visíveis de cerâmica de vários tipos, certamente indícios de riqueza arqueológica no subsolo, que mereceria escavação. Perto existem várias azenhas, hoje transformadas, e restos de uma estrutura (espécie de levada) que conduzia a água aos engenhos, a partir do ribeiro do Buraco. A uma propriedade vizinha (as “Tapadas da Torre”) está ligada uma lenda (que nos foi reproduzida pela dra. Maria Guadalupe, moradora nas proximidades), segundo a qual quem aí lavrar com uma junta de bois pretos pode encontrar um bezerro de ouro.
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| Torre Caldeira vista do sul (foto de RV, 2003) |
Não se sabe ao certo em que época foi construído pela primeira vez o edifício hoje conhecido por “Torre de Caldeira”, situado na freguesia de Carreiras, nas proximidades do antigo caminho de ligação entre as estradas (calçadas) de Castelo de Vide e da Póvoa, no sopé da Serra de São Paulo. O investigador popular Domingos Fernandes escreveu que foi outrora um "solar de frades", sem contudo apresentar os fundamentos da sua convicção. Situada na antiga “herdade da Retorta”, a torre - pelas suas características arquitectónicas - seria antes uma habitação destinada a membros da nobreza, edificada, à semelhança da “Torre Alta”, junto de um terreno fértil, na proximidade de importantes vias de comunicação terrestre.
Para além da documentação existente e da morfologia da construção, vem em auxílio da nossa convicção a toponímia. Por um lado, temos “Torre de Caldeira”, juntando ao designativo do edifício o apelido de uma das famílias nobres mais importantes de Portalegre, com papel relevante na estrutura sócio-política da região desde a Idade Média. Por outro, a designação atribuída ao caminho que conduzia ao local, a “Azinhaga das Honradas”, lembrança dos privilégios fiscais atribuídos ao proprietário da herdade, uma vez que "honradas" se chamavam as terras possuídas por membros da nobreza, quando isentas de impostos.
Em termos gerais, a “Torre de Caldeira” segue o modelo arquitectónico das torres senhoriais da Idade Média, embora com características diferenciadas, uma vez que o edifício que hoje podemos observar é mais recente, talvez já do século XVII ou, quando muito, de finais de quinhentos. Reconstruída, remodelada ou - será a hipótese mais provável - construída de raiz na época que acabámos de apontar, trata-se de um edifício com três andares, com entrada térrea pelo lado nascente e janelas no primeiro e no segundo andar. É coberta por um telhado de quatro águas, semelhante aos "telhados de tesoura", típicos da arquitectura civil da época em que terá sido edificada. Ocupa o extremo poente de um conjunto de edifícios destinados à habitação e à actividade agrícola (hoje abandonados e, alguns deles, em ruínas, devido a um incêndio ocorrido nessa região em 2003), construídos até meados do século XX sobre um afloramento rochoso granítico, suficientemente alto para permitir uma vista desafogada do alto da torre em qualquer direcção (excepto para norte, lado em que se ergue a vertente da serra). A torre está completamente rebocada e caiada em qualquer das suas fachadas.
A propriedade em que se ergue esta construção chamava-se, como dissemos, “Herdade da Retorta”. Conhecida pelo nome actual apenas desde inícios do século XVIII, está intimamente ligada à história de uma das famílias mais importantes da nobreza portalegrense, os Tavares, alcaides-mores de Portalegre durante a segunda dinastia (séculos XIV-XV). Foi sede do rico "morgado da Retorta", instituído em inícios do século XVII e deixado - em testamento lavrado a 25.03.1609 - por Jorge Caldeira de Tavares, viúvo de D. Maria de Mesquita, a seu filho Diogo Caldeira.É possível que tenha sido Diogo Caldeira de Tavares quem construiu ou remodelou a habitação senhorial da herdade da Retorta, tornando-a uma sede condigna para o morgado que herdara de seu pai. Embora não tenhamos a absoluta certeza, é pelo menos verdade que refere no seu testamento "as casas" que edificou na propriedade - não sabendo nós se nelas se inclui ou não a torre senhorial.
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| Torre Caldeira vista de sudoeste (foto de RV, 2003) |
Pelo testamento de Diogo Caldeira de Tavares, aberto a 01.01.1645 por morte de sua mulher, D. Maria de Sousa, ficamos a saber também que foi ele o responsável pelo engrandecimento fundiário do vínculo, acrescentando à Retorta, a uma azenha na Ribeira de Nisa e a uma quinta na Ribeira de Seda, variadíssimas propriedades. O documento referido apresenta-nos uma longa lista de domínios rústicos e urbanos por ele incluídos no Morgado da Retorta - transmitidas por sua morte ao novo herdeiro, o seu neto Pedro de Sousa Caldeira.
O morgado da Retorta passou indiviso de geração em geração. No final da Monarquia, era propriedade dos Condes de Melo. Habitada ao longo da História por vários rendeiros, a "Torre de Caldeira" pertenceu até há pouco tempo à família Tavares, residente no Porto da Espada (Marvão). Foi recentemente adquirida por uma família residente na aldeia de Carreiras, que procedeu à sua recuperação.
Ruy Ventura
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Quem visita as igrejas da região de Portalegre dá-se conta de uma intensa devoção à humanidade de Cristo. Incentivada, segundo creio, pelas pregações dos Frades Menores (aí presentes desde a fundação do convento de S. Francisco, no séc. XIII), é visível tanto na sua versão pública quanto em versões privadas, de índole popular. É rara a igreja onde não existe uma imagem de Jesus. Entre elas, merecem especial carinho as esculturas de Cristo ainda criança, geralmente chamadas “Menino Jesus”, embora o seu nome oficial seja “Menino Deus” ou “Salvador do Mundo”, podendo ser ainda a materialização do culto dirigido ao “Nome de Jesus”.
Embora o povo junte as três designações oficiais numa forma mais simples e carinhosa, normalmente cada uma delas tem características iconográficas próprias. Apresentando-se todas de pé, o “Salvador do Mundo” tem sempre numa das mãos o orbe, isto é, o mundo, podendo este servir mesmo de pedestal. O “Menino Deus” geralmente abençoa com a mão direita, enquanto a esquerda tende a segurar uma vara (o ceptro?). O “Nome de Jesus” – conceito verbal, demasiado intelectualizado, que escolheu o Divino Infante para se representar – pode aparecer em qualquer das formas escultóricas.
A devoção ao Menino é das mais antigas que se regista em Carreiras (Portalegre). A primeira referência que a ela conheço data de 1544, ano em que António Fernandes deixa ao “menino IESUS nas Carreyras quinhentos reis de esmola”. Que devoção oficial deu origem ao “Menino Jesus” das Carreiras? A resposta surge ainda no século XVI através do testamento de Gaspar Travassos (1592). Nele doa à igreja de S. Sebastião várias toalhas “todas de beirame”, uma delas para o altar do “nome de iesus”. Em 1659 é ainda essa a designação da confraria que promovia o seu culto. Só em meados de setecentos o nome muda para “Menino Deus”, adequado à iconografia antes apontada. Nessa altura, o Menino Jesus deixa, contudo, de ser titular do altar do Evangelho, dando lugar a um Cristo adulto, o Crucificado, mais tarde substituído por um Senhor da Paciência (que viria a desaparecer na segunda metade do séc. XIX, em benefício de um belo Santo António proveniente, é minha convicção, do extinto convento portalegrense do mesmo nome). Encontramo-lo em 1898 no altar-mor, numa posição privilegiada. Aí se manterá até 1944, colocando-se no seu lugar a Senhora de Fátima. Até essa data, era Ele quem abria todas as procissões das Carreiras, num andor barroco, ainda existente.
Recolhido na sacristia, continuou a ser cuidado pelas zeladoras do templo que, com desvelo, lhe mudavam os vestidos. Não se tratando de uma imagem “de roca”, teve o mesmo destino de muitas outras esculturas, que chegaram a ser amputadas para que vestimentas (de que não precisavam) assentassem bem. No caso presente, o braço que abençoava foi arrancado, para se tornar articulado... Tudo prova de uma devoção intensa, mas pouco esclarecida. A mesma que, talvez no século XVIII, mandou pôr uns olhos de vidro na imagem e promoveu uma nova pintura, pouco cuidadosa, esbranquiçada, que cobriu a original, muito mais bela e realista.
Esta situação encontrou em 2004 o padre Alberto Jorge quando decidiu mandar restaurar o Menino. O trabalho foi entregue a uma técnica consciente que restituiu à imagem a sua dignidade antiga, fazendo a sua reintegração cromática. Regressado, foi devolvido ao altar-mor, onde hoje abençoa os seus devotos, na beleza da sua nudez original (representação da Verdade), nascida talvez no séc. XVI ou XVII.
(in O Distrito de Portalegre)
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- Lenda da fundação de Carreiras
- Lenda da fundação de Portalegre
- Lenda da herdade da Cabaça (Portalegre)
- Lenda da igreja de São Sebastião (Carreiras)
- Lenda da imagem de Nossa Senhora da Estrela (Marvão)
- Lenda da imagem de S. Pedro (Alegrete)
- Lenda da imagem do Mártir Santo (Carreiras)
- Lenda da Maia (Portalegre)
- Lenda da Moura do Reguengo
- Lenda da moura dos Fortios
- Lenda da Pedra da Moura (Caia, Urra)
- Lenda da ponte da Portagem (Marvão)
- Lenda da serra da Penha (Portalegre)
- Lenda da Serra de Frei Álvaro
- Lenda da Serra de Matamores (Fortios)
- Lenda das santas da Aramenha (Marvão)
- Lenda de Marvão
- Lenda de Nossa Senhora da Alegria (Alegrete)
- Lenda de Nossa Senhora da Penha (Castelo de Vide)
- Lenda de Nossa Senhora da Penha (Portalegre)
- Lenda do ataque dos mouros a Marvão
- Lenda do castelo de Carreiras (Portalegre)
- Lenda do Mártir Santo (Fortios)
- Lenda do Porto da Espada (Marvão)
- Lenda do poço sem fundo do castelo de Marvão
- Lenda do rio Sever
- Lenda do tesouro da igreja de São Domingos (Fortios)
- Lenda do tesouro da Serra de São Mamede
- Lendas da Provença (Ribeira de Nisa)
Orações e outros textos religiosos
Romanceiro Tradicional
Romanceiro Religioso
Romanceiro Vulgar
- A sala do meu recreio
- Despique entre dois pretendentes
- Despique entre marido e mulher (1)
- Despique entre marido e mulher (2)
- Diálogo entre dois jovens na colha da azeitona
- Joaninha e o estudante
- Jovem enganada pelo namorado suicida-se ("A costureira")
- Jovem espera pelo namorado que morreu na guerra
- Jovem parte para a tropa nos Açores
- Jovem põe namorada à prova
- Jovem seduzida convence namorado a casar
- Jovem seduzida é desprezada pelo pretendente
- João Silva da Costa
- Juramento amoroso
- Maria Fernandes Pereira
- Mariquinhas
- O patrão e a criada
- Soldado esquecido pela noiva expõe-se à morte na batalha
- Vida de soldado
Toponímia e outros vocábulos
O Norte Alentejano na Literatura
Outros patrimónios materiais
Documentos
- Carreiras (Portalegre), alguns topónimos
- Carreiras (Portalegre), outros topónimos
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (1)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (2)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (3)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (4)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (5)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (6)
- Censos 2011 (Portalegre)
- Da realidade quotidiana (Avelino Bento / Nicolau Saião)
- Fanal, memória dum suplemento cultural no Alentejo
- História da freguesia de São Simão da Serra (Nisa) (J. D. Murta)
- Ibn Maruán (on line)
- Igreja da Senhora da Penha (Castelo de Vide) (Tarsício Alves)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (1)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (2)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (3)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (4)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (5)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (6)
- Memórias paroquiais de Castelo de vide (7)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (8)
- Normas para a defesa do património diocesano
- Portalegre vista por D. Antonino Dias
- Primeira República em Carreiras (Portalegre)
- Raízes indoeuropeias
- Raízes semitas
- Sobre a Ordem Terceira da Penitência de Portalegre (artigo de Fernando Correia Pina)
- Sobre as lendas religiosas (in INVENIRE nº 2, 2011)
- Sobre as origens de Santo António das Areias (Jorge de Oliveira)
- Sobre o hidrónimo "Xévora"
- Sobre o topónimo "Ammaia"
- Sobre o topónimo "Carreiras" (Maria Guadalupe Alexandre)
- Sobre o topónimo "Larou"
- Sobre os nomes "Urraca" e "Urra"
- Toponímia moçárabe
- Topónimos derivados de "burj"
- Topónimos derivados de AGER ou AGGER
- Topónimos derivados de KAR
Opiniões
- A arquitectura e o seu uso
- Aclarar a memória [s/ livro de Bonifácio Bernardo]
- Humilhar José Duro, exaltar D. João III
- Portalegre, alguns exemplos
- Ressurreição? [s/ nº 15 d' A Cidade]
- Um amigo e uma exposição [s/ pintura de João Salvador Martins]
- Um comércio moribundo
- Um exemplo discreto [s/ João Ribeirinho Leal]
- Um livro humilde e rigoroso [s/ livro de Rosário Salema de Carvalho]
Outras páginas de Ruy Ventura:
MILAGRE QUE FEZ Ex-voto do Senhor dos Aflitos reaparece mais de 40 anos depois de “perdido” Nunca estaremos suficien...
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Torres senhoriais da freguesia de Carreiras (Portalegre) Existentes um pouco por todo o país, mas com maior incidência no território a n...
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Lenda da Serra da Penha (Portalegre) 1 Versão de Portalegre, recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – ...
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Lenda da Maia (Portalegre) Versão literária, de proveniência desconhecida, publicada na Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira , vo...





